Entrevista

 

Prof. Alexandre Oliveira: Como o Sr. pode garantir que uma pessoa esteja apta para ser aprovada num concurso de alta concorrência aplicando as suas técnicas por apenas 6 meses?

 

Prof. Manoel Morais - O búlgaro Lozanov ensinou inglês para os seus alunos em menos de duas semanas. Alguns aprenderam o idioma em apenas 7 dias e nunca mais esqueceram! Isso pode parecer impossível (e é!) quando se leva em conta o modo convencional de ensinar e de aprender. Estamos numa época de alta-tecnologia, mas um professor da Idade Média se sentiria em casa na maioria das salas de aula de hoje, a não ser pelo livro impresso! O professor de matemática é bom em matemática, mas o que ele ensina? Matemática! E não como ser bom em matemática! No geral, ele adquiriu domínio na disciplina a duras penas e é apenas isso que pode ensinar. É por isso que os alunos não se encantam. Nada de grandioso pode ser feito sem prazer. O próprio cérebro não estará engajado no processo, pois possui um mecanismo peculiar de evitar situações desagradáveis, buscando repetir as que dão prazer. Enquanto todos estão dizendo “esforce-se para aprender”, a minha mensagem é “relaxe e aprenda”. Pois tudo que não se pode fazer para aprender é se esforçar! A escola e a universidade tem valorizado a transmissão dos conteúdos, mas ninguém está pensando nos métodos! Há alguma disciplina curricular que ensina a estudar, que explica o funcionamento do cérebro ao aprender, que fala como memorizar os conteúdos? As pessoas estão estudando de uma forma que não é a que o cérebro aprende, estão nadando contra a corrente! Quer ver uma coisa? Um aluno assiste a uma aula de um excelente professor. Obviamente compreenderá tudo [risos]. Ocorre que dentro de duas semanas não se lembrará de nada! Outro: ele lê um livro de excelente didática, compreende tudo, e em duas semanas? Nada! E as pessoas acham que isso é normal! Uma pessoa que concluiu um curso de direito já estudou tudo de que necessita para ser aprovada num concurso para juiz ou procurador. Por que então precisam se preparar por mais de cinco anos após o final da faculdade? Por que esquecem! Algumas precisam até fazer cursinho preparatório para prestar o exame da OAB! O que eu faço é explicar o funcionamento do cérebro e técnicas eficientes de estudar, para que estudem da mesma forma como o cérebro aprende! Isso deveria ser a primeira busca de qualquer aprendiz e de todo mestre. Antes de dizer “eu vou estudar” deveriam  dizer “vou aprender a estudar”!

 

Prof. Alexandre Oliveira: E por que estas técnicas não são de domínio comum, quero dizer, por que não são ensinadas na escola e na universidade?

 

Prof. Manoel Morais: Porque o peixe não sabe que está dentro do aquário! Se você propuser a um diretor de escola do ensino médio, por exemplo, que proponha alguma medida para melhorar a qualidade de educação, ele certamente dirá: vamos dar mais aulas! Ou seja, eles fazem muito certo a coisa errada! Não param para rever os métodos, insistem em repassar os conteúdos. Colocar um aluno de frente a um livro e dizer “estude” é uma covardia! Não estou falando do que fazer (estratégia), estou interessado é no como fazer o que fazer (tática). Todo professor deveria conhecer a linguagem da aprendizagem, ou seja, saber como o cérebro funciona, além da disciplina no seu campo de atuação. Muitos dos chamados problemas de aprendizagem são, na verdade, problemas de ensino. Vamos fazer um exercício de imaginação agora: o que você acha que aconteceria com as empresas de comunicação, com os correios, com os bancos, com as diversas prestadoras de serviço, companhias aéreas et cetera, se todos os computadores do mundo parassem exatamente agora?

 

Prof. Alexandre Oliveira: Parariam?

 

Prof. Manoel Morais: Todas! Qual seria a única que não pararia? A escola! Isso mostra o quanto a escola e a universidade estão divorciadas do progresso geral da sociedade.

 

Prof. Alexandre Oliveira: É por isso que nossa educação fica tão atrás até de países vizinhos nossos aqui da América do Sul.

 

Prof. Manoel Morais: É por isso! O que está sendo ensinado neste exato momento em nossas faculdades está, no mínimo, com 10 anos de defasagem!

 

Prof. Alexandre Oliveira: Como o Sr. passou a se interessar pelo tema do cérebro e pensar em estratégias para aprender?

 

Prof. Manoel Morais: Num dos meus cursos, um aluno levantou o braço no meio da minha exposição e desabafou: “Professor, onde o Sr. aprendeu isso tudo?” [risos]. Eu disse que era apenas um professor de química que se interessou de verdade pelos seus alunos. Deixe-me explicar melhor. Eu era professor de química em Fortaleza, ministrando aulas para turmas específicas para medicina. Acontece que o aluno ótimo não passa no vestibular de medicina na Universidade Federal do Ceará! Precisa ser mais do que ótimo! As minhas aulas eram de alto nível, mas sempre dentro da química. Eu tive que parar a química para estudar o funcionamento do cérebro, virei minha atenção para as estratégias! Albert Einstein declarava que não se considerava com capacidade superior a ninguém, que, pelo contrário, até se achava mais lento que os demais. Perguntava qual adulto parava para pensar em coisas como o tempo. Apenas as crianças pensavam nisso. Logicamente, ele foi bem mais fundo que uma criança. Eu também fui fundo nesse tema e usei meu próprio cérebro para desenvolver muitas das técnicas inéditas que ensino.

 

Prof. Alexandre Oliveira: Lozanov usava a música, o Sr. também a recomenda?

 

Prof. Manoel Morais: A música é comprovadamente eficaz para levar a informação aos níveis mais profundos de armazenamento no cérebro. A música para esses fins não pode ter letra. Recomendo música clássica, especificamente do período barroco, com seus60 a 80 ciclos por minuto. A música não é apenas um som, ela interfere não apenas nas ondas cerebrais, mas até nos batimentos cardíacos e na pressão sanguinea. Estudos como o de Gordon Shaw da Universidade da Califórnia demonstraram a eficácia da música barroca, como capaz de elevar o padrão de raciocínio do cérebro, por estimulação das redes neuronais, melhorando também a memória. Ninguém tem memória, memória não é um lugar ou algo que possamos ter, é algo que o cérebro faz. Resultados semelhantes sobre a propriedade singular da música barroca foi obtido por Frances Rauscher, da Universidade de Wisconsin. Experimentem a sonata para dois pianosem Ré Maior, de Mozart.

 

Prof. Alexandre Oliveira: Quais cursos o Sr. ministra?

 

Prof. Manoel Morais: O meu portfolio é composto de três cursos principais, sendo que os três últimos não são abertos ao público. Apenas as pessoas que fazem o primeiro curso são convidadas a participar dos outros. O primeiro é o “Curso de Técnicas de Estudo”, no qual eu falo do funcionamento do cérebro, exploro técnicas de aprendizagem, como fazer as provas de concursos et cetera. No curso “Estratégias Avançadas de Leitura” são abordados os aspectos ligados a uma leitura de alto desempenho. E o clímax é o curso “Cérebro Total”, no qual abordo os temas relativos à inteligência, criatividade e longevidade.

 

Prof. Alexandre Oliveira: É natural o declínio da capacidade do cérebro com o transcurso da idade?

 

Prof. Manoel Morais: Isso vem sendo derrubado pelas descobertas das neurociências. Isso só ocorre se a pessoa deixar de exercitar o seu cérebro, do mesmo modo que até o nosso braço, se o mantivermos imóvel, ficará com os músculos atrofiados. Quanto mais o cérebro aprende, mais rápido aprende e o processo fica mais fácil. O cérebro se rearranja com os aprendizados, propriedade que chamamos de plasticidade cerebral. Os neurônios podem se regenerar, contrariando décadas de crença “científica”. Pasko Rakic e David Kornak localizaram novas células cerebrais na região do hipocampo, região associada ao aprendizado e à memória. Se levarmos uma vida rica em experiências produtivas e gratificantes, o cérebro terá feito um grande número de conexões, que representa o alto grau de plasticidade. Se a pessoa leva uma vida rotineira e entediante, a criação de conexões é rara e até as existentes vão se extinguindo. As pessoas devem entender que nos aposentamos de um trabalho, nunca da vida!

 

Prof. Alexandre Oliveira: Quais dicas o Sr. pode nos passar sobre como manter o cérebro mais ativo. O Sr. pode nos passar algo?

 

Prof. Manoel Morais: Imagine o cérebro como uma árvore que se alimenta dos próprios frutos que caem no chão. A atividade cerebral é o próprio combustível e comburente do cérebro! Aliás, o corpo humano como um todo é a única máquina que melhora com o uso [risos]. Então, usar o cérebro de forma criativa, com todo o seu potencial natural, é a maneira mais garantida de evitar a própria senilidade. Encare o cérebro como uma ferramenta que está aí para te ajudar e ser usado mesmo. Está diante de um desafio? Pense! Desafie a si mesma com questões interessantes. Pense em como poderia tornar a sua vida e a dos outros mais agradável. Leia livros sobre assuntos diversificados. Aprenda um novo idioma. Há várias atividades que podem ser enquadradas como o que chamo de ginástica cerebral. Coisas simples, como, por exemplo, escovar os dentes com a mão não-dominante, desatar os sapatos com apenas uma das mãos, escrever com a mão oposta e uma infinidade de outras atividades inéditas. O princípio aqui é o seguinte: na fase de aprendizagem de uma tarefa, empregamos predominantemente o hemisfério direito e o cérebro é muito solicitado, o que o fortalece. Quando passamos a dominar a tarefa, entramos no chamado piloto automático e a execução é delegada ao hemisfério esquerdo, sendo o cérebro menos exigido. Já reparou que as pessoas que gaguejam cantam uma música inteira sem gaguejar e até declamam poemas com maestria? É que a tarefa já inteiramente aprendida entra no piloto automático, de forma diferente dos imprevistos de uma conversação. O fato é que fazer com que o cérebro continue aprendendo coisas novas, ainda que em situações bem simples, faz com que ele produza “frutos” que melhoram o seu desempenho geral! Desse modo, aprender a tocar violão, mudar de residência, aprender linguagem de sinais, são melhores do que remédio para a memória! Após o meu curso Cérebro Total, há um acompanhamento num ambiente virtual, no qual são propostas atividades diárias para estimular o cérebro. Se as pessoas usassem mais o cérebro, pensassem mais, raciocinassem mais… este planeta seria muito melhor, os profissionais das diversas áreas teriam melhor domínio técnico e até a cidadania seria exercida com mais eficiência!